Quaresma


O arrependimento é uma segunda vitória da fé e um novo testemunho.

A humanidade alegrou-se com os primórdios da fé e foi reavivada pelo martírio como selo da fé: agora espera ainda uma época de arrependimento que será uma das eras espirituais mais florescentes e não menos alegre e produtiva em comparação com as épocas precedentes, isso, com a condição de que o arrependimento seja vivido autenticamente.

O arrependimento não é outra coisa que uma segunda vitória da fé e um novo testemunho. O retorno à fé acolhida anteriormente é uma alegria quase maior do que a primeira adesão. Pensai na viúva depois que encontrou a dracma perdida (Lc 15,8-10); pensai no pastor que se alegrava mais por ter reencontrado a sua ovelha perdida do que pela certeza de possuir as outras 99 no redil (Lc 15,4-7). O Senhor nos ensina que o retorno ao seio de Cristo por um homem que se arrepende, possui uma força e uma honra iguais à alegria de ter um redil completo, isto é, uma igreja inteira.

Deus quis dar ao arrependimento uma dupla honra, de felicidade, de gáudio e de alegria, de modo que um pecador não seja desencorajado ou temeroso de retornar aos braços de Cristo, para que a glória da cruz possa prevalecer sobre a infâmia do pecado e que a mansidão de Deus, sempre disposta a justificar o ímpio, fosse glorificada. Mesmo que um pecador que se penitencia dificilmente possa ser notado pelo mundo, a Bíblia afirma que o céu inteiro acolhe com alegria o arrependimento de um pecador e se alegra quando um homem é justificado. O arrependimento é a maior das obras de que a humanidade possa se glorificar pois, quem se arrepende, está respondendo ao poder de Deus de perdoar e de justificar e obtém, mediante a contrição, o fruto da cruz e a santificação da parte de Deus. Pensai: um homem que se arrepende pode, com a sua contrição, alegrar os céus e o coração de Deus!

Quando os santos perceberam a honra reservada ao arrependimento e à contrição – honra originalmente reservada aos pecadores, aos adúlteros e aos indolentes -, choraram por si mesmos e se submeteram com seriedade e capricho à severa disciplina do arrependimento, como se eles fossem os indolentes: assim o povo passou a pensar que o arrependimento fosse obra dos santos e a contrição, dos justos!

Quanto a nós, miseráveis, julgamos ser a nossa justiça a introduzir-nos junto de Deus e que a nossa virtude, a erudição, o culto, o zelo nos garantem a comunhão com as coisas celestes. Não percebemos que tudo está nu e descoberto aos seus olhos e a ele devemos prestar contas (Hb 4,13), que não temos nada de bom para nos aproximarmos de Deus: Ninguém é justo, nem um só (Rm 3,10), e que como pano imundo são todos os nossos atos de justiça (Is 64,5).

Se apenas soubéssemos que Cristo veio para justificar o ímpio (Rm 4,5) e para chamar de minha amada aquela que não era amada (Rm 9,25); se apenas estivéssemos seguros disso, renunciaríamos, imediatamente, a toda a nossa justiça, a toda a nossa falsa piedade, a toda ostentação forçada e, no mesmo instante, as abandonaríamos como coisas ímpias e não julgaríamos os nossos pecados como demasiadamente grandes para serem lavados pelo sangue de Cristo e a nossa impureza como uma carga demais pesada para o seu amor.

Não é nossa função justificar os ímpios, nem podemos fazê-lo: essa é uma ação divina, uma capacidade sobrenatural que permanece incompreensível para nós. É a riqueza do céu que foi derramada com o sangue de Cristo em nossos corações; é a riqueza do dom e da generosidade total; é a benevolência de Deus unida a uma compaixão e amor superabundantes, a ponto de se superar e não ter piedade de si mesmo, mas se imolou na cruz em favor da miséria dos pecadores.

Justificar o ímpio é um ministério divino, um dos mais profundos mistérios da salvação. Seria suficiente, para nós, acreditar que Deus é capaz de justificar o ímpio: essa nossa fé seria considerada justiça por si mesma, sem levar em conta que nos tenhamos aproximado de Deus como pessoas ímpias, convictas de dever ser justificadas em virtude do poder de Deus de justificar e santificar; se isso acontecesse, nos aprofundaríamos imediatamente no incompreensível mistério de salvação.

Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores! Sim, o pecador! O pecador nada mais é do que um monte de imundícia unida à luxúria, malvadeza, vaidade e à dolorosa experiência da dissolução. Exatamente o pecador, repugnante a si mesmo e aos outros, é o motivo da vinda de Cristo ao mundo.

O pecador que, por causa do pecado, sente dentro de si a falta absoluta da luz da vida e da comunhão dos santos, exatamente ele é o amigo que Jesus convidou à mesa e que foi procurar ao longo dos caminhos; é ele o amigo ao qual foi pedido ser convidado às núpcias de Cristo e o herdeiro de Deus. Deus prometeu-lhe não recordar nenhum de seus pecados, mas deixá-los cair no esquecimento, do mesmo modo que uma nuvem de verão é absorvida pelo esplendor do sol. Por acaso, não foi por ele que Cristo crucificou-se a si mesmo e suportou a miséria e o abandono?

O maravilhoso poder de Cristo, Deus que redime e ama até a morte, absolutamente não pode ser percebido ou experimentado se não na pessoa do pecador prostrado por terra e repudiado por todos. Sem o pecador, não temos condições de compreender o amor de Cristo, calcular sua profundidade e nem esse amor divino pode manifestar-se numa ação que revele a qualidade extraordinária dele.

O amor divino alcança o máximo valor aos nossos olhos quando conseguimos conhecê-lo em sua bondade para conosco no momento em que afundamos numa condição miserável.

Por amor ao pecador foram revelados os mistérios do amor de Deus e foi-nos aberta a riqueza de Cristo, riqueza oferecida gratuitamente – nem ouro nem prata podem adquiri-la. Como é grandiosa a pobreza do pecador! Somente a extrema miséria do pecador faz jorrar, de fato, a riqueza de Cristo, com uma confiança semelhante àquela de uma criança faminta que suga o leite do peito da mãe.

Cristo jamais enriquece quem é rico, mata a fome de quem está saciado, justifica quem é justo, redime quem confia em si mesmo, ensina a um erudito! Sua riqueza é somente para o pobre e o necessitado, para quem foi rejeitado, é desprezível e derrotado aos próprios olhos; o alimento abundante de Cristo é para o faminto, sua justiça para os pecadores, seu braço forte para quem caiu, sua sabedoria para as crianças e para quantos se consideram pequenos. Todo aquele que é pobre, faminto, pecador, caído ou ignorante é hóspede de Cristo.

Cristo desceu da glória de seu reino à procura daqueles que estão no abismo profundo, que atingiram o grau máximo de miséria, de perdição e de obscuridade abominável, daqueles que não têm mais esperança em si mesmos. Neles se manifesta o seu poder de ação e a potência do seu ser Deus quando seu amor imolado se precipita para libertar o pecador do pântano e do esterco e se apressa em aspergir e lavar com o divino sangue  todo membro contaminado. Em pessoas desse tipo é glorificada a justiça de Deus; nelas encontra-se um terreno para a compaixão, a misericórdia e a ternura, e nas almas daqueles que são desprezados e descartados a sua humildade encontra conforto pois, no ser condescendente para com eles, encontra uma obra digna de sua mansidão.

Ó, se ao menos os pecadores soubessem ser a obra de Deus e a alegria de seu coração! Somos obra de suas mãos (Ef 2,10). Se o pecador estivesse seguro de que a sua condição aos olhos de Deus sempre esteve entre as preocupações do Onipotente e foi levada em conta desde a eternidade, e que a mente divina no curso dos séculos se preocupou com o seu retorno, e que os céus e tudo o que contêm estão à espera de sua conversão, jamais se envergonharia de si mesmo, nem desprezaria a própria possibilidade de conversão, nem retardaria sua volta.

Se o pecador ao menos soubesse que todas as suas transgressões, culpas e enfermidades nada mais são do que o motivo da compaixão, da remissão e do perdão de Deus e que, por maiores e atrozes que possam ser, jamais poderão entristecer o coração de Deus, extinguir-lhe a misericórdia, impedir – nem mesmo por um instante – o seu amor! Se o pecador apenas soubesse isso, jamais se agarraria a seu pecado ou procuraria, no isolamento de Deus, um véu para impedir sua vergonha de contemplar a face de Cristo, face que está procurando demonstrar-lhe o amor que nutre por ele e que o está chamando!

O pecado não tem mais o poder de separar o homem de Deus.

Pois bem, justifiquemo-nos, diz o Senhor. Se vossos pecados forem escarlates, tornar-se-ão brancos como a neve! Se forem vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã! (Is 1,18)

Deus é assim, sempre condescendente conosco; ele sabe como o pecado enfraquece o coração do pecador e o prostra num estado de vergonha mortal, constrangendo-o não a procurar Deus, mas a esconder-se, privando-se assim da vida; por isso, Deus mesmo toma a iniciativa de insistentemente chamar o pecador e convidá-lo para juntos discutirem.

O pecador pensa que o pecado o impede de procurar Deus, mas é exatamente para isso que Cristo desceu à procura do homem! Por acaso Deus não assumiu a carne do homem para curar-lhe a doença, para redimi-lo do pecado que reinava sobre ele e para fazê-lo ressurgir da maldição da morte? O pecado não tem mais o poder de separar o pecador de Deus depois que ele enviou seu Filho e pagou o preço – o preço total do resgate – na cruz. É o temor do pecador, sua vergonha e o seu engano que esconde o lado traspassado de Cristo, no qual o mundo inteiro pôde encontrar purificação muitas vezes!

O pecado não mais tem o direito de existir ou de permanecer em nossa nova natureza: é como uma mancha numa veste, imediatamente lavada, em menos de um piscar de olho, quando o pecador se arrepende e busca a face de Deus.

O pecador não deve procurar qualquer poder autônomo ou algum outro mediador senão o sangue de Cristo para chegar a Deus e encontrar redenção e perdão pois, de outra forma, arriscaria insultar o amor de Deus e sua suprema misericórdia, ou desonrar sua onipotência, sua benevolência ou compaixão. Em todo caso, o pecador pode encontrar auxílio em todos os santos e penitentes da Igreja. Vimos, ouvimos e testemunhamos que a profundidade do perdão de Deus, sua imensa remissão, seu poder de santificar alcançam o máximo poder e grandeza quando quem se arrepende toca o fundo da própria fraqueza.

Existe, também, um pecador falso, que pinta-se a si mesmo como um grande pecador e narra a todos seus inumeráveis pecados, mas dentro de si não os percebe como reais e não provocam nele nenhum tormento ou remorso de consciência. Para uma pessoa assim não existe arrependimento, nem mesmo se cumprisse milhares de obras ou recitasse milhares de preces diariamente: Cristo é um médico experiente, sabe distinguir um verdadeiro paciente de um que pretende sê-lo. Cristo não veio apenas com a água para lavar as sujeiras do corpo, mas com água e sangue para lavar, antes de tudo, as feridas sangrando pelo pecado que dilaceraram o coração e a consciência de toda a humanidade, para depois revigorar o corpo com doses de seu sangue vivificante, de forma a poder recuperar-se de sua fraqueza mortal, erguer-se e viver.

Quando o profeta Isaías define nossos pecados vermelhos como a púrpura, na realidade se refere ao sangramento do pecado que tinge a vida do homem com a cor da morte. Sangrar sempre joga o homem num estado de desespero e terror, como um apunhalado no coração ou como um assassino com as mãos gotejantes de sangue; são exatamente os responsáveis por semelhantes pecados, pessoas com a consciência ensangüentada, pesada, afligida e desesperada que Isaías convida a conhecer as profundidades do perdão e da misericórdia de Deus. Para esses, Cristo desceu de junto do Pai, para chamá-los à colina do Calvário. Contemplai-o enquanto abre os braços na cruz para revelar a magnanimidade de seu coração que busca aqueles que se perderam e expulsa o desconforto do coração desesperado.

Cristo veio procurar os verdadeiros pecadores, mergulhados na compunção do remorso e do desespero, e não escuta os mentirosos que se proclamam pecadores e se autocondenam diante dos outros, para procurar maior prestígio graças à sua humildade: esses serão elogiados como penitentes, mas na realidade não o são.

Cristo veio para oferecer a liberdade aos prisioneiros, indo procurá-los nas trevas de cavernas ocultas; mas, se não tomaste consciência da escravidão do pecado, de tua escuridão, se ainda não abriste os olhos a seu horror terrificante, como podes olhar nas profundezas? E se não gritas por socorro, como pode o Salvador ouvir tua voz e, como faz, para saber onde estás?

Cristo veio para dar vista aos cegos. Mas, se não descobriste a cegueira de teu coração e não te sentes privado da luz divina, se procuraste abrir os olhos dos outros enquanto tu mesmo estás cego, como pode Cristo fazer-te o dom da vista, e como pode chegar para entregar-te a luz?

A essência do arrependimento é a consciência do pecado, o grito de dor pelo crime e a certeza da ausência de luz.

O arrependimento consiste em cair braços de Deus. Existe em mim o desejo do bem, mas não a capacidade de realizá-lo. (Rm 7,18)

Há um terrível obstáculo que impediu a muitos de dar o passo para o arrependimento. Permanece no limiar do arrependimento o pecador que apela à sua vontade, mas não encontra matéria para dar início a uma obra boa que seja: então ele se compara com aqueles que obtiveram misericórdia e perdão, perde a coragem e mergulha num grande desconforto e tristeza, considerando o arrependimento como um dever demasiado cansativo. Isto é cilada do Adversário! Quem disse que o arrependimento consiste em apelar à vontade, num ato de coragem ou de força, na realização de algum empreendimento? Pelo contrário, o arrependimento não é o cair nos braços de Deus, atirar-se a seus pés sem mais uma vontade própria, com o coração ferido que sangra de tristeza e os membros destruídos pelo pecado e não têm mais força de se reerguer a não ser pela misericórdia de Deus?

Cristo comparou aquele que se arrepende, a um estrangeiro que caiu nas mãos de assaltantes num país estranho. Eles arrancam-lhe as vestes, lançam-no por terra, o humilham e ferem, deixando-o mais morto do que vivo. Quem se arrepende, é como um homem despido da veste de honra pelo demônio; sua vontade é desnudada e seus membros contaminados. O diabo lhe rouba seu tesouro, que consiste na saúde da mente, na luz interior e na voz da consciência: deste modo sua pessoa é humilhada, sua queda posta à luz, sua vontade despedaçada. Por último, o diabo o fere em profundidade com a ansiedade de morrer o mais rápido possível: e deste modo, finalmente, deixa-o na posse de apenas um corpo morto, incapaz de viver. Por isso, o bom samaritano não tem possibilidade de fazer-lhe perguntas ou de admoestá-lo: toma-o imediatamente nos braços.

O bom samaritano da parábola (Lc 10,30-37) é Cristo, e nossa interpretação é extraída exatamente do sinal: Cristo não reprova quem  se arrepende, não lhe pede que faça algum gesto, mas vai-lhe pessoalmente ao encontro no local onde caiu, curva-se sobre ele com afeto, lava e enfaixa a ferida dele com a própria ferida, estanca o derramamento de sangue com o derramamento de seu sangue, derrama sobre ele o óleo da sua compaixão e da sua vida, transporta-o nos braços de sua misericórdia, oferece-lhe um transporte até a hospedaria de sua Igreja, pede a seus anjos que o sirvam e gastem sua graça com ele até a cura.

Esse é aquele que se arrepende: um miserável que caiu ao longo da estrada após ter sido atacado pela opressão do homem e a maldade do demônio, e não está mais em condições de fazer nada. Depois que as forças o abandonaram, encontra refúgio na casa do Compassivo, encontra refúgio em seu coração, entre seus braços, em sua montaria e no seu reino.

Cristo arrancou o pecado das vísceras do homem. Os filhos se apresentam à saída do seio materno,mas não há força para dar à luz.  (Is 37, 3b)

Essa situação, descrita por Isaías, é também a condição do pecador quando está no limiar do arrependimento, numa luta desesperada pela salvação e por uma vida nova. De fato, quando passa a contemplar o passado que o arruinou, chora, e quando deseja o futuro que o espera, desanima, pois se apercebe de que a falta de forças invadiu todo o seu ser e de que não é mais capaz de sair da lama, prisioneiro que é de sua fraqueza. O pecado é como a doença que faz secar as plantas: uma vez tendo atacado uma, não a abandona até que as trevas da morte a cerquem por todo lado. Esta é a natureza do pecado que se difunde por todo o ser do homem para arrancar-lhe o espírito vital.

O pecado não só nos enfraquece, mas também nos mata. Quando Cristo veio, sabia que estávamos mortos pelas culpas e pelos pecados (Ef 2,1). A pessoa morta por causa do pecado, já tinha sido concebida na iniqüidade e, depois de algum tempo, o tormento da morte abateu-se sobre ele. O nascimento no pecado é uma condenação e uma verdadeira morte que o pecador descobre em si. Mas, Cristo arrancou o pecado das vísceras do pecador e deste modo resgatou-nos de uma morte inevitável. Ele ocupou o posto do pecado nas profundidades de nosso ser e tomou corpo em nossa mais oculta intimidade. Foi renovada a criatura que nós somos: depois que a morte dominou sobre nós, agora em nós reina a vida, e o tormento da morte foi substituído pela alegria da vida e da libertação. Cristo submeteu-se à morte para salvar-nos de uma morte semelhante, e prossegue ainda sua obra de salvação. É deveras inacreditável que um homem justo possa morrer em lugar de um pecador, mas Deus não é como o homem. Tudo o que é inacreditável e impossível, Deus o realiza quando demonstra seu amor por nós, morrendo por nós enquanto ainda éramos pecadores (Rm 5,8).

Por isso, o pecado do pecador, sua extrema ignomínia devida àquele pecado latente em seu íntimo, o odor de morte que invade o seu ser por causa da iniqüidade da vida precedente, tudo isso foi medido por Deus em seu profundo amor e encontrou uma saída na vinda do Filho de Deus na carne da Virgem; vinda que fez nascer do seio de Maria um fruto de vida no lugar do fruto de pecado, concebido pelo homem.

Ao invés da falta de forças, própria do tormento da morte, de que Isaías fala como de alguma coisa inevitável para o homem, Deus serviu-se do ventre da Virgem com o seu poder infinito, de modo que viesse à luz um homem. Mas, que nascimento: este homem nasceu de Deus!

Ao pecador é pedido ter confiança na obra realizada por Cristo através do nascimento e da cruz, realizadas por causa do pecado, da absoluta falta de forças e da morte de uma pessoa. Outra coisa não se pede ao pecador senão estender a mão como a hemorroísa (cf. Lc 8,43) e tocar o manto do Salvador. Então tomará consciência de como o poder do Senhor vem-lhe ao encontro, para nele morar. O fluxo de sangue pára, a fraqueza se torna força e a morte foge diante da vida!,/p>

Por acaso, não estenderás tua mão para receber uma parte desta força e deixar de ser fraco ou morto? Recorda-te disso quando, durante a Semana Santa, exclamas com o coro dos fiéis: Minha força e meu canto é o Senhor, ele me salvou (Ex 15,2; Sl 118,14).

Se queres saber como o poder de Deus pode se derramar em ti, recorda-te de Jericó: seus muros não desabaram sob os golpes das espadas ou da guerra, mas ao grito de vitória no nome do Senhor. Lembra-te, também, de como o Jordão se abriu sob os pés dos sacerdotes. Este mesmo poder do Senhor está sempre à disposição do fraco e do aflito, de quem está perturbado ou oprimido.

Não sabes, não ouviste?O Senhor é o Deus de sempre,ele cria as extremidades da Terra, ele não enfraquece, ele não se fatiga; não há meio algum de sondar a sua inteligência; ele dá energia ao fraco,ele aumenta a resistência de quem está sem forças. Eles enfraquecem, os jovens,eles se fatigam, mesmo os homens de elite tropeçam. Mas os que esperam no Senhor retemperam a sua energia: tomam a envergadura das águias, lançam-se e não se fatigam, avançam e não fraquejam.  (Is 40, 28-31)

Não existe alternativa além do socorro que vem do alto,/p>

Tu me lançaste no abismo no coração dos mares onde a corrente me envolve; todas as tuas vagas e tuas ondas abatem-se sobre mim. Por mais que eu diga: Estou expulso de diante de teus olhos, contudo continuo olhando para o teu santo Templo. As águas me chegam à garganta, enquanto as vagas do abismo me envolvem: as algas se entrelaçam em torno de minha cabeça. Desci às bases das montanhas; para sempre as trancas da terra – da Morte – se fecharam sobre mim. Mas tu me fizeste sair vivo do fosso, ó Senhor, meu Deus!  Enquanto meu fôlego está no fim, eu me lembro e digo: Senhor! E minha oração chega a ti, em teu santo Templo.(Jn 2,4-8)

Essa é a situação de tantos que estão dilacerados por pensamentos de remorso por causa de seus pecados, mas permanecem desconfiados em relação à misericórdia de Deus: estão derrotados como um corpo que se afoga, levado embora por um rio de idéias e de fantasias desesperadas; cada vez que procuram reemergir para respirar o sopro da vida, violentas ondas de escuridão mental os submergem e arremessam-nos para longe de sua esperança. Assim, sua alma é destruída sempre mais por preocupações sem fim: é como se o desespero começasse a oprimi-los como um caos oprimente, no qual tristes pensamentos pessimistas chovessem de todo lado. Dúvida, angústia e aflição envolvem suas mentes como a alga marinha envolve o pescoço do afogado, obstaculando-lhe os movimentos, de modo a não mais poder existir salvação.

É uma guerra amarga para o pecador, que se afoga nos tormentos por seus muitos pecados. Quando pensa na salvação, os demônios das trevas se insurgem para a vingança. Nenhuma lucidez, nenhum raciocínio, nenhuma leitura, nenhum conselho de homens sábios pode auxiliar o pecador, pois se trata de uma guerra mental, e a mente se encontra na desgraça da prisão. Não há nenhuma alternativa ao socorro que desce do alto, além da razão, lá do alto, do Deus que habita no mais alto dos céus: Quando meu fôlego estava no fim, eu me lembrei do Senhor (Jn 2,8).,/p>

Àqueles que se arrependem mesmo nas tribulações, anunciamos aquela palavra de libertação que para eles será uma âncora em que confiar, porque retira a alma dos abismos da perdição e guia-a no mundo da luz, da esperança e da paz, no confortável ventre do arrependimento: Todo pecado e toda blasfêmia será perdoada aos homens (Mt 12,31). Bendito é o Deus vivente que antecipadamente conheceu e mediu toda tribulação que devemos enfrentar e toda guerra planejada contra nós. Ele permanece com o ouvido sempre atento para escutar o primeiro gemido de invocação e de socorro: Minha oração chegou até junto de ti, em tua santa habitação (Jn 2,8). Que Deus é semelhante ao nosso Deus, tão próximo à nossa prece, tão atento à nossa súplica? Para nós, Deus é refúgio e fortaleza, socorro sempre perto nas angústias (Sl 46,1).

A confiança em cristo deve ser perfeita como cristo

Na angústia que me oprime, eu imploro o Senhor: ele me responde; do ventre da Morte suplico socorro: tu ouves minha voz… Por mais que eu diga:  estou expulso de diante de teus olhos,  contudo, continuo olhando para teu santo Templo…Mas tu me fizeste sair vivo do fosso, ó Senhor, meu Deus!…Quanto a mim, ao canto de ação de graças quero oferecer-te sacrifícios, e cumprir as promessas que faço. Ao Senhor é que pertence a salvação!  (Jn 2,2-10)

Quando o inimigo nos persegue, tratando-nos como já perdidos por causa de nossas iniqüidades, lembremo-nos da palavra do Senhor que afirmou ter vindo para procurar e salvar o que estava perdido. Quando o adversário nos repete que perdemos a esperança na salvação porque o pecado habita nossas mentes e nossos corpos, recordemo-nos de que Cristo morreu pelos pecadores: O sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado (1Jo 1,7). Quando o acusador nos repreende, dizendo-nos que nos manchamos gravemente e nos tornamos pecadores empedernidos, ímpios, familiares do mal, agarremo-nos então à promessa: Enquanto ainda éramos pecadores, Cristo morreu pelos ímpios no tempo estabelecido (Rm 5,6).

A lógica de Satanás é sempre uma lógica perversa! Se a racionalidade desesperadora utilizada por Satanás conclui que, por causa de nosso ser ímpios e pecadores estamos perdidos, o pensamento de Cristo é que, do mesmo modo que estamos perdidos por causa do pecado e da impiedade, somos salvos pelo seu sangue!

Por isso, a confiança em Cristo, da parte do pecador arrependido, jorra com uma racionalidade que não pode nem ser vencida, nem posta em dúvida. Mas, esta confiança na capacidade de Cristo de nos salvar da condição do mais espantoso desconforto, deve ser uma confiança pura e total em sua pessoa, que não deixa espaço para raciocínios ou discussões com o demônio, que não dê atenção à fraqueza da vontade e da carne, e que não calcula o estrago nem o preço a pagar. A confiança em Cristo deve ser perfeita como Cristo, segura como Cristo, confiante como Cristo.

Se Cristo veio para salvar-nos, então deve salvar-nos! É impossível que não tenha condições de salvar-nos, porque nossa salvação é obra de Cristo e é impossível que Cristo more em nós e não opere em nós. O credo de nossa fé tem origem, e é constituído, no confessar que somos salvos e nos transformamos naqueles que se arrependem em Cristo, porque nós afirmamos que Cristo veio para salvar os pecadores. E, a partir do momento em que confessamos que somos os maiores pecadores, é inevitável que devemos ser as primícias dos redimidos que se arrependem. Por isso, quando nos arrependemos a cada dia diante dele, fazemo-lo não como os fortes e os justos, mas como os fracos e os ímpios.

Cristo veio para procurar o que estava perdido: e eis-nos aqui, nós, os perdidos que o invocam, os mortos que se rejubilam na sua vida.

Veio para colocar-se a serviço dos fracos

Tornei-me como um vaso a ser jogado fora. … O terror me circunda. (Sl 30, 13-14)

Minha vida não me dá prazer, não quero viver mais tempo.  (Jó 7,16)

O pecado desagrega a vontade, deturpa a personalidade e dissolve a consistência da alma: não ficamos mais em condições de resistir à tirania do vício e à ilusão do pecado.

Realmente, do mesmo modo que o rato apenas surpreendido cai sob as unhas do gato, assim a força do pecador se dissolve à mínima queda no vício; e do mesmo modo que o coração do antílope pára à vista do leão e cai morto sob suas patas, assim o pecador se entrega aos maus pensamentos.

Sempre que decide resistir, cai, sempre que promete não repetir o erro o repete, perdendo a confiança em si mesmo. Sua capacidade de fazer o bem chega a tal ponto que ele próprio se olha com escárnio, como se olha um vaso quebrado que deve ser jogado fora. Sua esperança em Deus esvai-se e toda a sua resistência neste sentido se dissolve e torna-se como uma pulga afastada pelo vento, como alguém que não tem esperança no mundo.

É assim que, muitas vezes, o inimigo se agarra à alma e a acorrenta com o medo – medo do próprio pecado – e a arrasta como quer, de um pecado para outro. A alma, incapaz de apresentar qualquer objeção, agora o segue com uma vontade órfã, com uma honra decaída, com sentimentos feridos e com uma consciência perturbada, privada tanto da força para erguer-se quanto do prazer de cair.

Ah, pobre alma! não te lembras de tua primeira criação e daquela de teu Criador? Formou-te à sua imagem em coragem, verdade, santidade e justiça.

Mas, conhece Deus, verdadeiramente, o que acontece com o pecador aprisionado em semelhante pena e angústia? Para ter uma resposta a esta interrogação, ouçamos Cristo que diz: O Espírito está pronto, mas a carne é fraca (Mt 26,41). Mulher… ninguém te condenou?… Nem eu te condeno, vai e de agora em diante não peques mais (Jo 8, 10-11). Queres ser curado? (Jo 5,6).

Nossa fraqueza e nossa miséria eram conhecidas de Cristo desde a eternidade, e ele veio pessoalmente colocar-se a serviço dos pecadores débeis e derrotados. Colocou o seu Espírito Santo como guarda de suas almas, trabalhando dia e noite para expulsar o terror e o medo dos corações dos pecadores, e transformar-lhes o coração em sua morada.

A personalidade que foi desagregada pelo pecado é recomposta pelo Espírito; a alma que foi humilhada pelo demônio – que riu da autoridade dela e anulou-lhe a vontade – é agora tocada pela graça de Cristo e, conseqüentemente, é feita ressurgir, é renovada e revigorada.

Um único olhar a Cristo fez Pedro superar a própria fraqueza e derrota sofrida diante de servos e domésticas, fê-lo retomar coragem e readquirir a vontade, que se tinha quebrado como um vaso de argila, a ponto de sua alma dissolver-se diante da ameaça. No olhar de Cristo, Pedro encontrou a força do arrependimento, graças ao qual recuperou a própria integridade.

Cristo continua a andar em meio aos pecadores, curando toda fraqueza e toda enfermidade da alma. O Espírito Santo está sempre pronto a inundar quem vacila com a força que vem do alto. A graça está presente a cada dia, para oferecer firmeza às mãos trêmulas e aos joelhos cansados. E o amor de Cristo, quando arde num peito contrito, transforma o coração de um covarde no coração de um mártir. Quantas vezes o arrependimento transformou a fraqueza, a derrota e a rendição, em testemunho que afirma e proclama a verdade do evangelho! A recordação dos horrores precedentes da alma, de seu desespero e falência, se transformam em testemunho da misericórdia de Cristo. O terror como força motriz do pecado e do vício, se dissolve em fumaça, e a submissão servil à tentação da companhia do mal se torna vigilância e proclamação.

Deste modo, o pecador estoura a imagem de corrupção e é revestido da nova imagem pela mão de Cristo. Assim, o fraco, o covarde, o tímido, o derrotado e aquele que não tem nenhum domínio sobre si escutam da boca do Onipotente a promessa: E eis que eu faço de ti como uma fortaleza, como um muro de bronze… Ninguém poderá resistir-te por todos os dias da tua vida… Não te deixarei, nem te abandonarei. Sê corajoso e forte (Jr 1,18; Js 1, 5-6).

A força do arrependimento consiste na luta incessante para obter o Espírito de vida em Jesus Cristo

Sinto, porém, nos meus membros, outra lei, que luta contra a lei do meu espírito e me prende à lei do pecado, que está nos meus membros. Homem infeliz que sou! (Rm 7,23-24)

O cão voltou ao seu vômito e a porca lavada volta a revolver-se no lamaçal. (2Pd 2,22)

Quando despertarei eu? Quero mais vinho!  (Prov 23,35)

Uma grande ansiedade e uma viva preocupação tomam conta da alma quando esta descobre a obstinação, a teimosia, a arrogância e a insolência do pecado; um vômito de tristeza misturado com um angustiante desespero brota na alma quando ela descobre, após repetidas provas, a inutilidade dos juramentos, promessas, obras de penitência, remorso e lágrimas; nada disso serve a alguma coisa: o que conta é a lei de santidade esculpida pela mão de Deus no coração de cada um, a qual chama incessantemente o profundo da alma: não existe consolação nem repouso a não ser na castidade, e não existe alegria nem paz a não ser na renúncia ao pecado! Qualquer desvio dessa lei provoca, imediatamente, um grave conflito com a consciência, uma oposição à própria vida, um desacordo com o Espírito, uma alienação da finalidade da Criação, um enfraquecimento nas trevas do pensamento, uma falta de equilíbrio no julgar a natureza das coisas, uma rebelião no confronto com a verdade e, conseqüentemente, um contraste com o Autor da lei.

E então acontece que o homem – aprisionado num louco entusiasmo – começa imprudentemente a bater-se diretamente com o pecado. Mas, que dor quando descobre o quanto ele mesmo está mutilado e como o pecado é tirânico! Levado à exasperação pelo entusiasmo, repete a tentativa e permanece profundamente agitado pela descoberta de que o espectro de Satanás está ali, encarnado atrás do pecado e escondido nos órgãos dos quais se apossou, e domina nas faculdades da alma e nos movimentos da carne de modo profundo e organizado; tudo foi calculado há muito tempo, a ponto de ter deitado raízes e tornado lei. Ao final – sim, exatamente no fim – após ter esgotado todos os seus esforços e ter utilizado todas as suas astúcias e idéias, o homem descobre que é mais fácil conservar a água num lenço, recolher o vento na palma da mão ou subir a pé até os céus do que controlar a lei do pecado com a própria vontade, ou exercitar o domínio sobre as potências do mal que se agitam nas profundezas de seus membros.

É neste ponto que intervém a ação de Cristo; somente ele condenou o pecado na carne! Pois a lei do Espírito que dá a vida em Cristo Jesus me libertou da lei do pecado e da morte (Rm 8,2).,/p>

A força do arrependimento consiste na luta incessante para obter o Espírito de vida em Jesus Cristo, lá onde a carne deve ser resgatada da lei do pecado por meio da graça. Do momento em que possuímos a graça, podemos lutar até o sangue contra o pecado, seguros de que, em virtude da força da graça, seremos mais do que vencedores: Sei em quem acreditei! (2Tm 1,12).

Finalidade do arrependimento não é que nós sejamos justificados diante de Deus através do remorso e da repressão exterior do pecado mediante atos de penitência e de mortificação da carne; pelo contrário, finalidade do arrependimento é que nós sejamos santificados interiormente pelo Espírito de Cristo – para que seja destruído o corpo do pecado (Rm 6,6) – e libertado do próprio pecado na profundeza da consciência, que o poder e o medo do pecado desapareçam e que a graça possa ser guia dos impulsos da consciência, possa freiar as ações da carne, controlar o insurgir dos pensamentos, disciplinar a ascese, misturar-se com a austeridade e tornar doce a dor.

Não é simplesmente o perdão do pecado a ação completa da graça no homem, nem tampouco exata é a finalidade última da fé em Cristo; a finalidade do arrependimento e da fé é, pelo contrário, a destruição do pecado em nossos membros, o fim da existência de seu poder, o desaparecimento de sua lei em nossa natureza; e tudo isso pertence ao poder soberano da graça. Vós sabeis que (Cristo) apareceu para tirar os pecados (1Jo 3,5).

Na cruz, Cristo teve o lado trespassado para derramar água e sangue sobre todos aqueles que nele crêem e o procuram: água para lavar a impureza do pecado, e sangue para eliminar o poder do pecado.

É verdadeiramente bendito o dia em que o lado de Jesus foi trespassado na cruz para que ali o pecador encontrasse a própria justiça, a própria santidade e a própria redenção.

E tem quatro domingos de Pré-Quaresma:

I – Domingo do Fariseu e do Publicano

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«Cingi-vos todos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, contudo, aos humildes concede a sua graça.» (I São Pedro 5, 5)

«O Pecado de Não Ser Pecador.»

Já se falou muito sobre esta parábola que lemos hoje, do Fariseu e do Publicano, e ninguém certamente simpatiza com a figura do fariseu, mas logo se identifica com o cobrador de impostos (publicano). Talvez logo demais. O fariseu não é criticável por rezar em pé, que era a posição judaica mais usada na oração, nem pelo que disse, que é muito bom. Com efeito, a Lei exigia um só dia de jejum no ano, e o dízimo não era exigido sobre todas as posses. O problema do fariseu, e de muitos de nós, foi o que ele não disse – não disse nada sobre os seus pecados, só levou em conta a sua “poupança” de méritos. Pior ainda, ele se comparou com o “pecador”, achando que Deus o ouvia, mas não àquele. Realmente ele não tinha como ser perdoado, pois não tomou consciência nem confessou seus pecados!

O cobrador de impostos, ao contrário, viu bem a si mesmo e só tinha olhos para os seus pecados. Seu único pedido foi por piedade, ou seja, por perdão. E sabemos que Deus ouve o pecador arrependido e o perdoa: “Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito não desprezarás, ó Deus.”(Salmos 51, 17)

A parábola coloca em cena os dois extremos da sociedade judaica: o fariseu, que se julga justo e perfeito, e o cobrador de impostos, que era considerado marginal pelo seu próprio ofício de arrecadar impostos para o Império Romano. Contudo, perguntamos: Como pode alguém gabar-se de sua própria justiça? A justiça do cristão vem de Deus, por meio de Jesus Cristo, e deve nos levar à busca dos valores do Evangelho e do Reino de Deus, a serem vividos diariamente.

II – Domingo do Filho Pródigo

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« Se consideras as culpas, Senhor, Senhor, quem pode suportar? Mas em ti se encontra o perdão, para seres venerado com respeito.» (Salmo 130, 3-4)

A Parábola do Filho Pródigo, narrada por Jesus Cristo e registrada pelo evangelista São Lucas, parece, por vezes, ser um “espelho” da realidade: o pai é Deus, e tudo o que esse pai faz é revelação do que Deus quer e realiza através de Jesus. O irmão mais novo representa os pecadores, os doentes e todos aqueles que, por essas e outras razões, eram colocados à margem da vida sócio-religiosa. O filho mais velho representa os “justos e impecáveis” doutores da Lei e fariseus, e todos os pretensos justos que “não precisam de conversão”, por já se julgarem suficientemente “santos”.

Lida nessa perspectiva, a parábola ganha relevo todo especial. O filho mais novo se perde e, graças a essa perda, que pensava irrecuperável – ele até duvida que o pai vá aceitá-lo como simples empregado -, acaba descobrindo que Deus é Pai que o ama sem limites e o recebe com festa. Ele descobre o amor que perdoa, liberta e exerce misericórdia. O filho mais velho nunca se perdeu. Pelo contrário, sempre foi fiel e nunca pediu nada, talvez nem mesmo a sua parte na herança, que devia ser a maior, já que ele era o primogênito. Qual foi o seu erro? Foi o de ter imaginado que o pai era um patrão severo, e que ele era um simples empregado, e que a sua vida se resumia a cumprir obrigações, a ponto de nunca fazer uma festa com os amigos… Agora parece invejar o irmão, talvez até arrependido de ter sido correto. E este é um dos dramas da parábola: o filho mais velho rejeita o irmão, a quem se refere com desprezo – “este teu filho…” A lição que o Senhor quis ensinar à gente de seu tempo e a nós hoje é a da misericórdia e do perdão, que, em sua correta e evangélica aplicação, não excluem a justiça. Nós todos, filhos “mais velhos” e “mais novos” do Deus de misericórdia e justiça, devemos viver o amor fraterno, em comunhão com nosso Pai de Amor.

III – Domingo da Abstinência da Carne.

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As palavras de Jesus Cristo, que lemos hoje, se constituem na única vez, nos quatro Evangelhos, em que se mostra qual é o conteúdo do julgamento definitivo. Costumamos imaginar que ele vá acontecer no final da história, depois que este mundo “acabar”. Não é inteiramente errado, mas talvez parcial. Depois do testemunho dado por Jesus em sua vida terrestre, o mundo inteiro já entrou no juízo final. O seu testemunho colocou a humanidade em estado de julgamento, pois Ele revelou quem é Deus e quem é o homem, imagem de Deus. Assim, esta cena do Evangelho de São Mateus continua, hoje e sempre, como o espelho que reflete para Deus a verdade de todos e de cada um. Jesus Cristo é o Rei glorioso, sentado em seu Trono. Isso significa, ao mesmo tempo, que Ele é o Rei que governa e o Juiz que julga. Todavia, o que é o julgamento? Nossa fantasia costuma imaginar sentenças e castigos catastróficos, às vezes por causa de ninharias morais _ e não é isso. Julgamento, nas Sagradas Escrituras, é a revelação da verdade, quando todas as coisas perdem sua “máscara” e se mostram como realmente são diante de Deus, que é o espelho perfeito onde tudo pode se refletir e se reconhecer. O julgamento do Rei da Justiça não é arbitrário; apenas mostra a verdade. Quem julga e dá a sentença somos nós mesmos, porque, diante da evidência, não há como escapar. Eis aí o motivo de medo: diante do quê seremos julgados? Qual será o critério? O Evangelho é muito simples: o critério é a justiça, e justiça é atender às necessidades dos que precisam, e não simplesmente fazer para os outros aquilo que achamos melhor ou aquilo que gostamos de fazer.

IV – Perdão, Jejum e Desprendimento.

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No tempo de Jesus Cristo a religiosidade era vista como a realização de três práticas: esmola, oração e jejum. Poderíamos pensar nessas coisas como práticas isoladas. Elas, porém, são muito mais que isso. Na verdade, englobam todas as relações que mantemos na vida. E devem ser postas em prática. Jejuar é privar-se de alguma coisa que julgamos muito importante, e depois descobrir que essa coisa não é tão importante assim. No jejum podemos perceber horizontes novos para a nossa vida, e, principalmente, o que é essencial e fundamental para a vida humana. Com ele também percebemos que podemos crescer além do que já somos, fazendo coisas diferentes daquelas que já fazemos. Sobretudo, poderemos descobrir que há novas formas de viver e relacionar com os outros, com Deus e com o mundo. Deus nos fez à sua imagem e semelhança. Pois bem. Não devemos nos conformar com o que estamos sendo, mas desejar ser muito mais. E aqui entra o jejum: ele nos ajuda a ver que há horizontes novos, a nos desprender de valores puramente físicos e materiais.

Esmola, oração e jejum: relação com os irmãos, com o Pai e conosco mesmos. Estamos no centro desse triângulo, e não podemos esquecer de nenhum dos vértices. O Senhor vai à frente, em direção à Vida. Nós o seguimos, trilhando caminhos novos e construindo uma vida nova em Cristo, a caminho da gloriosa Ressurreição.

E seis domingos de Quaresma:

I – Domingo da Ortodoxia

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A veneração dos santos ícones, usual na Igreja desde os primeiros tempos, foi arduamente controvertida na época do iconoclasmo, nos séculos VIII e lX, o que suscitou a convocação e definição do II Concílio Ecumênico de Nicéia, em 787 (sétimo e último ecumênico), com sua definição favorável à veneração dos mesmos, à medida em que servem de suporte à elevação do espírito ao mundo invisível, definição essa confirmada em 843, quando se estabeleceu a Festa da Ortodoxia, que todos os ortodoxos celebram, desde então, no primeiro domingo da Quaresma.

A palavra “ícone” (“imagem”) é reservada à pintura de gênero sagrado, com uma técnica própria, segundo uma tradição transmitida pelos séculos. Os ícones representam Jesus Cristo, a Mãe de Deus, os anjos, os santos e outros temas religiosos, mas o ícone é muito mais do que uma simples figuração. Somente o acontecimento da Encarnação do Senhor o tornou possível. A hora do nascimento terreno do Filho de Deus é a hora do nascimento do ícone: Jesus Cristo, com efeito, nãoé apenas o Verbo de Deus, mas também a sua imagem: “Cristo é a imagem (ícone) do Deus invisível” (Epístola aos Colossenses 1, 15).

São João Damasceno, Sacerdote, teólogo e poeta, escreveu a respeito: “Quando aquele que é a Imagem consubstancial do Pai despojou-se, assumindo a imagem de escravo, tornando-se assim limitado na quantidade e na qualidade por se ter revestido da imagem carnal, então pintamos e expomos à vista de todos aquele que se quis manifestar.”

Nas palavras do apóstolo São Paulo: “Mas todos nós, com cara descoberta, refletindo, como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, na mesma imagem, como pelo espírito do Senhor” (2ª Epístola aos Coríntios 3,18). Assim, o ícone transmite verdadeiramente a imagem do homem purificado, transfigurado, revestido da beleza incorruptível do Reino de Deus, de uma pessoa humana transformada em ícone vivente de Deus. Através do ícone o divino nos ilumina. A luz é o atributo principal da glória celeste e os ícones representam os habitantes do Reino, contempladores da luz incriada, pela qual se deixam penetrar até se tornarem esplendorosos. O ícone é a “teologia visual”, como muitos já disseram.

II – São Gregório Palamás, Arcebispo de Tessalônica

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A cura do paralítico de Cafarnaum, que lemos hoje no Santo Evangelho, faz parte dos relatos de controvérsias entre o Senhor e seus oponentes. Neste caso, o motivo de desconforto e protesto é o anúncio do perdão dos pecadores feito por Cristo.

O paralítico chegou até Jesus numa cama (leito), carregado por quatro homens, o que indica que a sua deficiência era grave. Mas ele tinha vontade própria e um desejo profundo: esperava uma possibilidade, uma chance de alcançar Cristo. Sua palavra, seu grito, seu sofrimento não foram manifestos de forma verbal. Mas o que esse paralítico realmente esperava de Jesus? Ouvir suas palavras? Ser curado? Sim, a cura física. O Senhor “simplesmente” lhe disse: “Teus pecados estão perdoados!” Num contexto em que a doença, e, em especial, a deficiência estavam associados ao pecado humano e à punição divina, ouvir que não há mais pecado é ouvir palavras de libertação, palavras poderosas, de autoridade, palavras que transformamvidas e relações.

É retirar a culpa e os culpados do cenário, como realidade última, e possibilitar a construção de um outro cenário, a partir da graça de Deus e de novas relações curativas. O paralítico liberta-se de uma relação de débito permanente com Deus para ensaiar novos passos na fé, ainda “carregando seu leito”, mas liberto para novas relações com Deus e o próximo. Esta é a mensagem deste tempo de Quaresma e da Páscoa vindoura, novidade de vida diante de Deus, curados e perdoados por sua graça, em Cristo Jesus.

III – Veneração da Santa e Vivificante Cruz – Tomar a Cruz

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O discipulado comporta três atitudes radicais. Tudo começa com a renúncia de si mesmo. É preciso abrir mão dos projetos pessoais e submetê-los às exigências do Reino de Deus. Romper com o próprio egoísmo, que faz o indivíduo ensimesmar-se, e colocar o próximo e suas carências no centro de suas preocupações. Deixar de lado os preconceitos e as formas de pensar que não estão de acordo com o Evangelho de Jesus. Positivamente, a renúncia do discípulo supõe aceitar a liberdade própria dos filhos de Deus, que lhe descortina um horizonte infinito de possibilidade de amar e fazer o bem. O passo seguinte consiste em tomar a sua cruz. Ou seja, ser capaz de enfrentar as conseqüências de sua opção, sem se intimidar oudeixar arrefecer o entusiasmo inicial. A cruz do discípulo é a cruz do testemunho verdadeiro de sua fé que, ao defrontar-se com o erro e o mal, provoca reações até mesmo de hostilidade, e violenta. É também a cruz do desprezo, da rejeição, da zombaria e da exclusão, por causa da fidelidade a Jesus Cristo e pela coragem de não pactuar com o mal. Por fim, o discípulo está em condições de aceitar o convite “siga-me”, e fazer do caminho de Jesus seu próprio caminho e da vontade dele seu projeto de vida. Quem perde a própria vida, acaba encontrando a verdadeira vida, a que Jesus tem para oferecer.

IV – Comemoração de São João Clímaco

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A luta de Jesus contra a incredulidade de seus contemporâneos foi incessante. Até mesmo os discípulos, chamados para estar com Ele e compartilhar sua missão, davam mostras de possuir uma fé demasiado superficial. Sem falar dos adversários, sempre atentos para colhê-lo em alguma falha. O Evangelho que lemos hoje faz referência à irritação de Jesus diante da falta de fé dos que chamou de “raça incrédula”. Ele se perguntava até quando seria capaz de suportá-los! Não seria impertinente incluir os discípulos e o pai do menino nessa categoria. Talvez tivessem Jesus na categoria de um mago ambulante, operador de milagres, e gostavam de vê-lo atuando.

A fé em Jesus, porém, consistia em reconhecê-lo como o instrumento escolhido por Deus para realizar seus prodígios em benefício da humanidade e, assim, implantar o Reino de Deus na história humana.O cristão sabe que o poder miraculoso de Jesus foi-lhe dado pelo Pai para reconduzir a humanidade para junto dEle. O Mestre não era um milagreiro qualquer. Antes, seus milagres comportavam responsabilidade para quem deles se beneficiava. Somente quem entendia assim estava em condições de recebê-los. Por isso o pai do menino só foi atendido quando mostrou ter fé verdadeira em Jesus.

Finalmente, Jesus declara que o mal só pode ser derrotado por meio de uma fé firme unida a uma constante oração. Mas a fé e a oração não são fórmulas mágicas que solucionam os problemas sem mais nem menos. A fé é convicção, adesão e compromisso com a pessoa de Jesus e com sua missão. A oração é o meio por excelência para fortalecer a fé e avivar o compromisso. Sem oração a fé e o compromisso se debilitam.

V – Santa Maria Egípcia

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Dois dos mais próximos seguidores de Jesus, os apóstolos Tiago e João, mostraram sua confusão quanto ao Reino de Deus, dizendo-lhe: “Concede-nos que nos sentemos em tua glória, um à tua direita e outro à tua esquerda”. O Senhor respondeu perguntando se poderiam, como Ele, pagar o preço dos sofrimentos e da morte (“cálice” e “batismo”) por anunciar o Reino de Deus. Jesus, o “servo sofredor” propõe a seus seguidores a entrega aos demais e não a glória pessoal.

Os demais discípulos ficaram indignados contra Tiago e João, não por terem eles se equivocado sobre o significado da mensagem do Senhor, mas por terem se adiantado em pedir aquilo que, no fundo, todos eles desejavam. Com efeito,não se entende facilmente o que implica acolher o Reino; uma das graves perversões do discipulado cristão é crer que nossa condição de cristãos ou nossas responsabilidades na Igreja nos dão um poder de “senhores absolutos” sobre as outras pessoas. Ou seja, de glória pessoal segundo as categorias dominantes entre os grandes de nossa sociedade. Jesus, o Cristo inverte a ordem vigente. Tentando fazer com que seus discípulos avancem no caminho iniciado, diz-lhes que grande é o servidor, e o primeiro é o servo de todos. Trata-se de uma inversão de valores que constitui, como sabemos, um elemento central da mensagem evangélica. O Senhor que se fez um de nós, deu o exemplo primeiro, veio para servir e não ser servido.

Servir não significa aceitar passivamente que as coisas fiquem como estão. Servir implica em tomar iniciativa e ser criativo, em buscar conhecimentos e esforços por construir um mundo melhor, em ser justo e fraterno. O que o Evangelho condena é o poder como dominação, a ânsia de ser reconhecidos como chefes, não o poder compreendido como solidariedade eficaz, serviço ao próximo, a exemplo do Senhor.

VI – Domingo de Ramos – Início da Semana Santa

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Entrada Triunfal de Nosso Senhor Jesus Cristo em Jerusalém

«Exulta muito…! Grita de alegria…! Eis que o teu Rei vem a ti: Ele é justo e vitorioso, humilde, montado sobre um jumento… Ele anunciará a paz às nações. O seu domínio irá de mar a mar e do rio às extremidades da terra.»(Livro do Profeta Zacarias 9,9.10b)

Acolhamos o Rei Salvador

A entrada triunfal de nosso Senhor Jesus Cristo em Jerusalém, que celebramos a cada Domingo de Ramos, é um fato histórico narrado pelos quatro evangelistas (Mateus, Marcos, Lucas e João), e para todos constitui motivo de admiração. Com efeito, Jesus, que sempre evitou publicidade, permitiu naquele dia que o povo, que foi a Jerusalém, lhe prestasse solene homenagem, às portas da Cidade Santa.

Dos relatos evangélicos podemos perceber que se trata de uma manifestação popular, própria para a acolhida de soberanos, na qual o Senhor é aclamado “Rei” e “Filho de Davi”, não só em virtude de sua presença, mas também do entusiasmo suscitado pela prodigiosa ressurreição de Lázaro e a cura dos cegos de Jericó. Na mente do povo, a manifestação tinha um matiz sócio-político: Jesus era aclamado libertador do povo

Na intenção dos evangelistas, a manifestação é nitidamente messiânica: era o cumprimento das Profecias. A entrada de Jesus em Jerusalém significava a presença do Messias (Cristo) em sua cidade, como defensor dos humildes. A Liturgia deste domingo prepara-nos para a Semana Santa e a Páscoa. A alegria e a esperança com que aclamamos nosso Salvador devem sustentar-nos na meditação e celebração de sua Paixão e Morte, para voltar a ressoar, com maior intensidade, no Domingo da Ressurreição (Páscoa).