Pentecostes


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Ao findar o período de cinqüenta dias após a Páscoa, a festa de Pentecostes com a descida do Espírito Santo marca o “cumprimento da promessa e a realização da esperança,” como reza um hino do Ofício bizantino da manhã e no “próprio” dessa solenidade o élan poético se une à precisão teológica ao convidar o fiel à adoração do Deus Uno e Trino. No Oriente bizantino, a festa de Pentecostes celebra também a festa da Santíssima Trindade (diferentemente da liturgia latina que a celebra no domingo seguinte), porque justamente com a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos se completou a revelação do mistério trinitário. No cristianismo primitivo a comemoração do evento histórico, ocorrido no Cenáculo do monte Sion, prevalecia na festa de Pentecostes, que já se celebrava em Jerusalém no século IV, ao passo que a liturgia bizantina hodierna transfere tal comemoração ao dia seguinte, segunda-feira.


Os textos dos Ofícios unem, porém, os dois aspectos do mistério e já nas Vésperas encontramos seja um breve hino trinitário muito conhecido, porque cantado a cada liturgia eucarística, logo depois da comunhão dos fiéis:

Vimos a luz verdadeira,
recebemos o Espírito celeste,
encontramos a fé justa,
adorando a indivisível Trindade,
por ela nos salvou!

Seja a invocação ao Espírito Santo com a qual começam quase todas as orações litúrgicas e particulares dos fiéis ortodoxos e católicos de rito bizantino:

Rei celestial, Consolador, Espírito da verdade,
onipresente, Aperfeiçoador do universo,
Tesouro de bondade, Doador da vida, vem, habita em nós;
purifica-nos de todo pecado
e salva nossas almas, ó Bondoso.

No ofício das Vésperas, três leituras tiradas do Antigo Testamento (Nm 11:16-17.24-29; Jl 3:1-2 e Ez 36:24-28) evocam as obras do Espírito em épocas longínquas, para fazer melhor entender a ação transformadora ocorrida nos apóstolos nos inícios da história do Reino de Deus, assim sintetizada no tropário (8º tom) conclusivo:

Bendito és, ó Cristo nosso Deus,
que o Espírito fizeste descer sobre teus Apóstolos,
transformando-os com tua sabedoria, de simples pescadores,
em pescadores de homens, cujas redes prenderam
o mundo inteiro. Ó Senhor misericordioso, glória a ti!

Outro hino, repetido várias vezes durante a semana de Pentecostes, é o kondakion, que faz alusão ao fato bíblico da confusão das línguas durante a construção da torre de Babel: (Condaquion, tom 8)

Quando o Altíssimo desceu à Terra
para confundir as línguas, dispersou os povos;
mas, quando distribuiu as línguas de fogo,
chamou-nos todos à unidade.
Glorifiquemos a uma só voz o Espírito de toda Santidade.

É sabido que importância tem na teologia e na liturgia bizantina a pessoa e a obra do Paráclito; o Ofício de Pentecostes, em vários momentos, se detém em descrevê-las. É suficiente, como exemplo, este hino tirado das Laudes:

«O Espírito Santo era, é e será sem princípio e sem fim,
mas sempre igual em dignidade ao Pai e ao Filho
e com eles enumerado Vida e vivificador;
Luz e doador de luz;
Bom em si mesmo e fonte de bondade:
graças a ele o Pai é conhecido e o Filho é glorificado
e à humanidade inteira se faz conhecer
como uma única força, uma única hipóstase,
uma única adoração da santa Trindade.»

O ícone da festa, com sua mensagem visual, reforça nos fiéis o conhecimento do evento e do mistério de Pentecostes. Também ele se fundamenta no dado escriturístico (At 2), porém com uma releitura eclesial que, no seu tratado Hermenêutica da pintura, Dionísio de Furná no século 18, relatando uma tradição quase milenária, assim expõe.

«Os doze Apóstolos estão sentados em círculo e, abaixo deles, numa pequena abóbada semicircular, está a figura de um velho com uma coroa na cabeça; com ambas as mãos segura uma faixa na qual estão envolvidas doze cartas. Sobre a cabeça aparece a inscrição: ‘O Cosmo…´»

O mundo inteiro, representado pelo velho homem coroado, prisioneiro das trevas do mal e que estende os braços para receber os doze rolos, isto é, a pregação apostólica, é, dessa maneira, iluminado pelo evento de Pentecostes que continua ainda hoje: estende-se no anúncio missionário e alcança também a nós. Se no universo perdura o “mistério da iniqüidade” em tantos acontecimentos e situações dolorosas, a graça e a luz do Espírito pode renovar e divinizar tudo. No ícone descrito, aparece no centro a Virgem numa atitude orante e, ao mesmo tempo, de acolhida; à sua direita está São Pedro e os outros apóstolos. Entre eles podemos ver anacronismos como, por exemplo, as imagens de São Paulo ou de alguns evangelistas indicados pelos nomes inscritos nos nimbos, como querendo melhor sublinhar a ação permanente do Espírito Santo que funda e anima a Igreja. No alto, ao centro, o fogo da divindade, da qual se depreendem línguas de fogo colocadas sobre a cabeça da Mãe de Deus e dos apóstolos.

Afirma outro hino litúrgico:

O Espírito Santo distribui todos os benefícios,
efunde as profecias, institui os sacerdotes,
doa a sabedoria aos ignorantes,
transforma os pescadores em teólogos,
dá toda a sua forma ao ordenamento da Igreja.
Paráclito consubstancial e co-reinante com o Pai e o Filho, glória a ti!

Sete longas orações, recitadas pelo celebrante ajoelhado, como também todos os fiéis, constituem uma particularidade da festa de Pentecostes; fazem parte do ofício das Vésperas do domingo à tarde. A autoria da primeira oração é atribuída a São Basílio. Somente elas mereceriam um tratado à parte. Entre os hinógrafos da festa cujos nomes chegaram até nós, assinalamos: São Romanos, o Melode, que compôs uma oração recitada depois do kondakion e que na Quaresma bizantina é repetida todos os dias na Hora terça; Leão, imperador bizantino († 912), compôs um comentário ao Triságion e São Cosme de Maiúma, autor do primeiro Cânon no ofício das Matinas. Esses autores são os representantes daquela Igreja indivisa do primeiro milênio em que cristãos do Oriente e do Ocidente, mesmo com algumas diversidades, viviam unidos, testemunhando melhor que, graças aos apóstolos, sustentados pelo Paráclito, «o mundo inteiro é iluminado para honrar a Santa Trindade.»

A força divina, descida hoje sobre nós,
é o Espírito bom, o Espírito da sabedoria de Deus,
o Espírito que procede do Pai e através do Filho
se manifesta aos crentes,
doando aos que neles habita a santidade.

Invoquemos, pois, o Espírito Santo também para o restabelecimento da unidade plena entre os cristãos, para o louvor e glória da Santíssima Trindade!