Milagre do Fogo Santo


Onde e Quando Acontece o Milagre do Fogo Santo?

A cerimônia do Fogo Santo, que tanto toca as almas dos cristãos, ocorre na Igreja da Ressurreição, em Jerusalém, no dia da Páscoa Ortodoxa, cuja data é determinada a cada novo ano, pois deve ser o no primeiro domingo após o equinócio da Primavera e após a Páscoa Judaica. Portanto, na maioria das vezes difere da data da Páscoa Latina, que é determinada através de diferentes critérios.

O milagre do Fogo Sagrado é o famoso no mundo da Ortodoxia Oriental. Ocorre da mesma forma, no mesmo lugar, todos os anos ao longo dos séculos. Nenhum outro milagre é tão regular e constante ao longo do tempo. Acontece na Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, um lugar santo na terra, onde Cristo foi crucificado, sepultado, e onde Ele finalmente ressuscitou.

Cerimônia do Fogo Santo

A fim de permanecer perto do Santo Sepulcro, peregrinos acampam a seu lado. O Sepulcro está localizado na pequena capela chamada “Santo Ciborium”, no interior da Igreja da Ressurreição. Normalmente eles esperam a partir da tarde da Sexta-feira Santa, a sexta-feira que antecede o dia do milagre, que ocorre no Sábado Santo. A partir das 11:00 da manhã os peregrinos e os cristãos orientais cantam hinos tradicionais em voz alta. Estes cânticos são da época da ocupação otomana de Jerusalém, no século XIII, um período em que os cristãos não eram autorizados a cantá-los em qualquer lugar, apenas nas igrejas. Nós somos cristãos, temos sido cristãos por séculos, e seremos para todo o sempre. Amém. Eles cantam ao som de tambores. Os percussionistas ficam sobre os ombros uns dos outros, e dançam em torno do Santo Ciborium.  Mas, às 13h, os cânticos silenciam. Um silêncio tenso, esperando a antecipação da grande demonstração do poder de Deus, para que todos possam ver.

Pouco depois, uma delegação de autoridades locais abre caminho através da multidão. Na época da ocupação otomana da Palestina eram muçulmanos otomanos, e hoje são israelenses. Sua função é representar os romanos na época de Jesus. Os Evangelhos falam dos romanos que foram para fechar o túmulo de Jesus, para que seus discípulos não fossem roubar seu corpo e afirmassem que ele tinha ressuscitado. Da mesma forma as autoridades israelenses, juntamente com as autoridades das outras Igrejas, se dirigem ao sepulcro na Sexta-Feira Santa, após o Ofício das Exéquias de Cristo, para lacrar o túmulo com cera, colocando cada grupo o seu timbre. Antes disso, porém, apagam todas as lamparinas da igreja, e entram no local do sepulcro, para verificar a existência de qualquer fonte de fogo escondida, o que tornaria o milagre uma fraude.

No dia seguinte (Sábado Santo), antes do início da cerimônia, as autoridades israelenses vão novamente à igreja para romper o lacre e abrir a porta do santo sepulcro, e, antes que o Patriarca ali entre para receber o fogo santo, o revistam, para verificar se ele carrega algo que possa produzir fogo.

Como o Milagre Acontece?

“Eu entro no túmulo e me ajoelho com temor e respeito em frente ao lugar onde os cristãos colocaram o corpo do Senhor depois de sua morte e onde Ele ressurgiu dentre os mortos”, disse o saudoso Patriarca Ortodoxo de Jerusalém Diódoros. “Eu encontro o caminho através da escuridão para a interior da câmara,  na qual eu me ajoelho. Ali eu digo algumas orações que são proferidas por nós através dos séculos e, tendo-as dito, espero. Às vezes eu espero por alguns minutos, mas normalmente o milagre acontece imediatamente depois de eu ter dito as orações. A partir do centro da grande pedra sobre a qual o corpo de Jesus repousou, é lançada uma luz indefinida. Ela geralmente tem uma tonalidade azul, mas as cores podem variar. Ela não pode ser descrita em termos humanos. A luz nasce da pedra como névoa e aumenta, parecendo um lago – como se a pedra fosse coberta por uma nuvem úmida, mas é luz. A cada ano esta luz se manifesta de forma diferente. Às vezes, abrange apenas a pedra, enquanto outras vezes ilumina todo o sepulcro, de maneira que as pessoas que estão fora do túmulo o vejam cheio de luz. A luz não queima – eu nunca tive a minha barba queimada durante os dezesseis anos que sou Patriarca de Jerusalém e de ter recebido o Fogo Sagrado. A luz é de uma consistência diferente do fogo normal que arde em uma lamparina de azeite. Em um momento, a luz aumenta e forma uma coluna, na qual o fogo é de uma natureza diferente, e posso acender minhas velas nele. Quando recebo a chama nas velas que trago nas mãos, saio e passo o fogo santo primeiro ao Patriarca Armênio, e depois para o Patriarca Copta. Depois passo a sagrada chama a todas as pessoas presentes na Igreja.”

Enquanto o Patriarca está dentro da edícula ajoelhado em frente da pedra, há escuridão, mas longe do silêncio exterior. Alguém ouve o balbuciar alto, e o clima está muito tenso. Quando o Patriarca sai com um maço de velas acesas em cada mão, brilhando na escuridão, um som de alegria ressoa na Igreja.

O Fogo Santo não é apenas distribuído pelo Arcebispo, mas também opera por si só. É emitido a partir do Santo Sepulcro com uma tonalidade completamente diferente da luz natural. É brilhante, pisca como relâmpago, como uma pomba que voa em torno do tabernáculo do Santo Sepulcro, e acende sozinho a lamparina apagada de azeite pendurada em sua frente. O fogo gira de um lado da igreja para o outro. Ele adentra em algumas das capelas no interior da igreja, como, por exemplo, a Capela do Calvário (localizada um nível acima do Santo Sepulcro) e acende as lamparinas. Ele também acende as velas de alguns peregrinos. Na verdade, existem alguns peregrinos piedosos que, cada vez que participaram nesta cerimônia, notaram que suas velas acenderam sozinhas! Essa luz divina também apresenta algumas peculiaridades, pois parece ter uma tonalidade azulada e não queima. Por trinta e três minutos, desde sua manifestação, se o fogo sagrado tocar a face, ou a boca, ou mesmo as mãos dos peregrinos, não queima. Esta é a prova de sua origem divina e sobrenatural. E o fogo sagrado aparece apenas pela invocação de um Arcebispo Ortodoxo, e somente na Páscoa Ortodoxa.

O milagre não se limita apenas ao que acontece no interior do pequeno túmulo, onde o Patriarca reza. O que pode ser ainda mais significativo, é que a luz azul surge fora do túmulo. Todos os anos, muitos fiéis alegam que esta luz milagrosa acende, sozinho, as velas que os fiéis têm em mãos. Todos na igreja esperam com velas, na esperança de que elas possam inflamar espontaneamente. As lamparinas de azeite apagadas acendem por si só diante dos olhos dos peregrinos. A chama azul é vista se movendo em diferentes lugares na Igreja. Uma série de depoimentos foram assinados por peregrinos, cujas velas foram acesas espontaneamente, atestando a validade destas ignições. A pessoa que experimenta o milagre de perto, por ter o fogo sobre a vela ou vendo a luz azul, geralmente deixa Jerusalém transformada, e para todos que assistiram a cerimônia há sempre um “antes e depois” do milagre do Fogo Sagrado em Jerusalém.

Há Quanto Tempo Ocorre o Milagre?

O primeiro registro conhecido sobre o Fogo Sagrado é datado do século IV, mas autores escreveram que esses acontecimentos se deram já no século I. São João Damasceno e São Gregório de Nissa narram o modo como o Apóstolo Pedro viu o Fogo Sagrado no Santo Sepulcro de Cristo depois da ressurreição. “Podemos traçar o milagre através dos séculos em muitos relatos da Terra Santa.” O abade russo Daniel, em seu relato, escrito entre os anos 1.106-1.107, apresenta o “Milagre da Santa Luz”, e explica detalhadamente a cerimônia em que o mesmo ocorre. Ele recorda a forma como o Patriarca vai para a capela-Sepulcro (Anastasis -”Ressurreição”), com velas nas mãos. O Patriarca se ajoelha na frente da pedra sobre a qual Cristo foi colocado após a sua morte, e faz algumas orações, ao mesmo tempo o milagre acontece. A luz surge do meio da pedra – uma luz azul, luz indefinível que, após algum tempo, acende as lamparinas de azeite, bem como as duas velas que o Patriarca traz consigo. Esta luz é “o Fogo Sagrado”, que é passado a todas as pessoas presentes na Igreja. A cerimônia do “Milagre do Fogo Sagrado” pode ser a mais antiga cerimônia cristã no mundo, uma vez que, como já foi dito, ele é registrado a partir do quarto século d.C., até os nossos dias. A partir destas fontes torna-se evidente que o milagre foi celebrado no mesmo local, na mesma festa, e no mesmo tempo litúrgico em todos estes séculos.

Sempre que outras Igrejas tentaram obter o Fogo Sagrado, falharam. Três destas tentativas são conhecidas. Duas ocorreram no século XII, quando religiosos da Igreja Ocidental tentaram conseguir o milagre por si mesmos, e as tentativas terminaram com castigo de Deus. Mas o evento mais espantoso aconteceu no ano 1.579, quando Deus claramente testemunhou a quem somente poderia ser concedido diretamente o milagre.

“Quando religiosos de uma das Igrejas Orientais pagaram aos otomanos, que então ocupavam a Terra Santa, para obter permissão para que seu Patriarca entrasse no Santo Sepulcro, o Patriarca Ortodoxo se colocou, triste, com os seus fiéis, à saída da igreja , perto da coluna da esquerda, e o Fogo Sagrado se acendeu perto do Patriarca Ortodoxo, rompendo aquela coluna verticalmente.” Hoje, quem visita o Santo Sepulcro pode verificar isso, vendo por si mesmo a coluna rachada.

Um muçulmano, chamado Tounom, que viu o milagroso evento de uma mesquita vizinha, imediatamente abandonou sua religião e se tornou cristão ortodoxo. Este evento teve lugar em 1.579, sob o governo do sultão Mourad IV, sendo Sofrônios IV Patriarca de Jerusalém. A referida coluna rompida, do século XII, ainda existe, e, como já foi dito, lá permanece, em testemunho do acontecimento.

Guerreiros otomanos que estavam juntos à parede de uma construção perto do portão viram a luz refletir na coluna. Quando um deles viu este impressionante milagre, chorou e confessou ser Cristo verdadeiramente Deus, e saltou de uma altura de cerca de dez metros, mas não morreu nas pedras, pois as mesmas se tornaram suaves como e a marca de seus pés ficaram marcadas nelas. Os otomanos tentaram raspar estas marcas, para apagá-las, sem obter êxito; elas, então, permaneceram em testemunho do acontecimento.

Aquele que confessou a Cristo foi queimado pelos otomanos perto da Igreja. Seus restos mortais foram recolhidos pelos gregos, e estão no Mosteiro da Virgem Maria (Panaghia) desde o século 19, e deles sai myron.

Os que negam a Paixão, Crucificação e Ressurreição de Cristo, tentaram pôr obstáculos para a realização do milagre. Um conhecido historiador muçulmano, Al Biruni, escreveu: “… um governador colocou um fio de cobre no  lugar de um pavio na lamparina do Santo Sepulcro, de modo que ela não poderia acender, mas o fogo santo queimou o fio de cobre e acendeu-a.”

Esta não foi a única tentativa. Um relatório escrito pelo cronista Inglês Gautier Vinisauf descreve o que aconteceu no ano de 1.192.

“Em 1.187 os sarracenos, sob a direção do Sultão Salah ad-Din (Saladino) tomaram Jerusalém. O Sultão quis, então, no mesmo ano, presenciar a celebração. Gautier Vinisauf diz-nos o que aconteceu:” Em sua chegada, o fogo sagrado desceu repentinamente, e os assistentes ficaram profundamente emocionados; os sarracenos disseram que o fogo que eles viram descer fora produzido por meios fraudulentos. Saladino,  querendo expor o impostor, apagou a lamparina que o fogo celeste acendera, mas, uma vez feito isso, a lamparina imediatamente reacendeu. Ele a apagou uma segunda vez, e uma terceira, mas ela reacendeu sozinha. Então, o Sultão, confundido, chorou, dizendo, em tom profético: “Sim, morrerei ou perderei Jerusalém.”

Um milagre Desconhecido no Ocidente

Pode-se perguntar porque o milagre do Fogo Sagrado é quase desconhecido no Ocidente. Embora muitos tenham até interesse em milagres, este milagre não é conhecido? Por que? Como o milagre do fogo santo ocorre na Páscoa Ortodoxa, cuja data segue o antigo calendário Juliano, e somente acontece na Igreja do Santo Sepulcro (e somente nesta data e nesta celebração, que é presidida pelo Patriarca Ortodoxo de Jerusalém),  e como, ainda, há diferença na data da Páscoa Latina, celebrada segundo o Calendário Gregoriano, os ocidentais pouco (ou nenhum) contato ou conhecimento têm deste milagre.

A questão da Autenticidade do Milagre

Tal como acontece em relação a outros milagres, há pessoas que acreditam se tratar de uma fraude, uma obra prima da propaganda ortodoxa. Eles acham que Patriarca leva consigo uma fonte de fogo ao entrar onde está o túmulo. Esses críticos, contudo, são confrontados com uma série de problemas. Truques ou outros meios de ignição são invenções recentes. Centenas de anos atrás acender o fogo levaria mais tempo que os poucos minutos que o Patriarca permanece junto do túmulo. Talvez pudessem dizer que haja uma lamparina acesa no interior da capela do Sepulcro, onde ele poderia acender as velas, mas as autoridades locais confirmam, a cada ano, que verificam o túmulo e não encontram nenhum foco de gogo em seu interior.

Os melhores argumentos contra uma suposta fraude, no entanto, não são os testemunhos dos Patriarcas. Os maiores desafios enfrentados pelos críticos são os milhares de peregrinos que testemunham que suas velas foram acesas espontaneamente diante de seus olhos, sem qualquer explicação possível. De acordo com muitas investigações, nunca foi possível qualquer lamparina de azeite ou velas acenderem por si mesmas.

A Chama do Fogo Santo em Outros Países

Com especial permissão, autoridades religiosas ortodoxas de países como Grécia, Rússia, Chipre e Líbano, recebem a chama do fogo santo e a transportam para suas Igrejas, para que as lamparinas dos altares, apagadas na Sexta-Feira da Paixão, sejam acesas com esta chama na festa da Páscoa, como é costume em muitas Igrejas Ortodoxas.

Na Grécia a chama do fogo santo é recebida pelo Arcebispo e pelo Primeiro-Ministro, no aeroporto de Atenas, e, a partir daí, levada para as igrejas e mosteiros ortodoxos, inclusive no Monte Athos.

Desde 2.005 um grupo de Sacerdotes ortodoxos está trazendo a chama do fogo santo para o Líbano e Síria, de avião, passando pela Jordânia, através do Arcebispado de Amã. A empresa “Middle East Airlines” permite que um Sacerdote, que se apresenta de batina e epitrachilion (estola), embarque transportando nas mãos a lamparina acesa com a chama do fogo santo. No aeroporto de Beirute aguardam Arcebispos, Bispos e Padres, para receber esse fogo e passá-lo a todas as paróquias ortodoxas do país, para que as velas, na Páscoa, sejam nele acesas, e, assim, todos recebam a benção do sepulcro de Cristo.

No início da cerimônia de “Hajme” (Ofício da Ressurreição), o Arcebispo, ou um Sacerdote, convida os fiéis, com as palavras: “Vinde, tomai luz da Luz sem ocaso e glorificai o Cristo ressuscitado dentre os mortos”. Acender as velas neste momento simboliza exatamente receber a chama do fogo santo, que vem do Santo Sepulcro. Os fiéis aguardam esse momento com emoção. Esse é um novo costume na Igreja Ortodoxa no Líbano, quando todos se saúdam com alegria, dizendo: meu irmão, Cristo ressuscitou!