Eucaristia


Hoje em dia, a Eucaristia é celebrada na Igreja Oriental seguindo um de quatro diferentes ofícios:

  • A Liturgia de São João Crisóstomo (A liturgia normal aos Domingos e dias de semana).
  • A Liturgia de São Basílio, o Grande (usada dez vezes ao ano; externamente é muito pouco diferente da Liturgia de São João Crisóstomo, mas as orações ditas privadamente pelo Padre são muito mais longas).
  • A Liturgia de São Tiago, o irmão do Senhor (usada uma vez no ano, no dia de São Tiago, 23 de outubro, só em alguns lugares. (Até recentemente, era usada só em Jerusalém e na Ilha Grega de Zante; agora for revivida em mais alguns lugares, por exemplo, Igreja Patriarcal em Constantinopla; Catedral Ortodoxa em Londres; Mosteiro Russo em Jordanville, Estados Unidos).
  • Liturgia de São Gregório (dos Pré-Santificados, usada nas quartas e sextas-feiras na Grande Quaresma, e nos três primeiros dias da Semana Santa. Não há consagração nessa Liturgia, mas a comunhão é dada com elementos consagrados no Domingo precedente).

A primeira parte da Liturgia, o Ofício de Preparação, é feito privadamente pelo padre e diácono na Capela da Prótese. Assim, a parte pública do ofício é composto de duas seções: a Sinaxe (conjunto de hinos, orações e leituras das Escrituras) e a Eucaristia propriamente dita. Originalmente a Synaxis e a Eucaristia eram freqüentemente feitas separadas, mas desde o século quatro as duas virtualmente foram fundidas em um só ofício. Ambas, Sinaxe e Eucaristia contêm uma procissão, conhecidas, respectivamente, como Pequena e Grande Entrada. Na Pequena Entrada, o Pão e o Vinho (preparados antes do início da Synaxis) são trazidos em procissão da Capela da Prótese para o altar.

A Pequena Entrada corresponde ao Intróito do Rito Ocidental (originalmente a Pequena Entrada marcava o início da parte pública do ofício, mas no presente ela é precedida por várias Litanias e Salmos). A Grande Entrada é, na essência, uma Procissão de Ofertório. A Sinaxe e a Eucaristia têm ambas um clima claramente marcado: na Sinaxe, a leitura do Evangelho; na Eucaristia, a Epiclesis do Espírito Santo.

A crença da Igreja Ortodoxa em respeito à Eucaristia é tornada muito clara durante a Oração Eucarística. O padre lê a parte de abertura do agradecimento em voz baixa, até que ele chega nas palavras de Cristo na última Ceia: “Tomai e comei, isto é o meu corpo…” “Tomai e bebei, isto é o meu Sangue…” Essas palavras são sempre lidas em voz alta, para que toda congregação possa ouvir claramente. Em voz mais baixa, a seguir, o padre recita a Anamnese: “Celebrando, pois, Senhor, o memorial de tudo quanto foi realizado para nossa salvação: a Cruz, o Sepulcro, a Ressurreição ao Terceiro Dia, a Ascensão aos Céus, o Trono à direita de Deus Pai, a Segunda e Gloriosa vinda!”

Ele continua alto: “Aquilo que é teu, recebendo-o de Ti, nós Te oferecemos por todos e por tudo!”

Depois da consagração dos dons, o padre e o diácono, imediatamente, se prostram diante dos Santos Dons, que agora foram consagrados.

Ficará evidente que o “momento da consagração” é entendido de maneira um tanto diferente entre as Igrejas Ortodoxas e Católico-Romana. De acordo com a Teologia Latina, a consagração é efetuada pelas Palavras da Instituição: “Isto é meu Corpo…” “Isto é meu Sangue…” De acordo com a teologia Ortodoxa, o ato de Consagração não está completo até o final da Epiclesis, e veneração dos Santos Dons antes deste ponto é condenada pela Igreja Ortodoxa como Artolatria (veneração do Pão). A Ortodoxia, no entanto, não ensina que a Consagração é efetuada somente pela Epiclesis, nem olha para as Palavras da Instituição como acidentais e desimportantes. Ao contrário, ela olha para Orações Eucarísticas inteiras como formando um único e indivisível todo, de maneira que as três seções mais importantes da oração – Agradecimento, Anamnese, Epíteses -, todas formam uma parte integral do Ato único de Consagração (Alguns escritores Ortodoxos vão além disso, e mantém que a consagração é produzida pelo processo todo da Liturgia, começando com a Próteses e incluindo a Sinaxe! Tal visão, no entanto, apresenta muitas dificuldades, e tem pouco ou nenhum suporte na tradição Patrística). Mas isso logicamente significa que se tivermos que escolher um “momento de consagração,” tal momento não pode ser nenhum até o Amém da Epiclesis (Antes do Vaticano 2º Cânon Romano, segundo todas as aparências não tinha Epiclesis; mas muitos Liturgistas Ortodoxos, mais notavelmente Nicolau Cabasilas, olham o Parágrafo te como constituindo em efeito uma Epiclesis, apesar dos Católicos Romanos hoje em dia, com algumas notáveis exceções, não entendem esse parágrafo assim).

A Presença de Cristo na Eucaristia. Como as palavras da Epiclesis deixam completamente claro, a Igreja Ortodoxa acredita que, após a consagração, o pão e o vinho tornam-se verdadeiramente o Corpo e o Sangue de Cristo: Eles não são só símbolos, mas a realidade. Mas enquanto a Ortodoxia sempre insistiu na realidade da mudança, ela nunca tentou explicar o modo da mudança: a Oração Eucarística na Liturgia simplesmente usa o termo neutro metaball, “virar” e “mudar,” ou “alterar.” É verdade que no século dezessete não só escritores Ortodoxos individualmente, mas Concílios Ortodoxos como o de Jerusalém em 1672, fizeram uso do termo Latino “Transubstanciação”, junto com a distinção escolástica entre Substância e Acidentes (No Filo Medieval é marcada uma distinção entre a substância ou essência, substancia, isto é, tudo aquilo que pode ser percebido pelo sentido tamanho, peso, forma, cor, sabor, cheiro e assim por diante). Uma substância é algo existente por si próprio (ens per se), um acidente só pode existir herdando de alguma outra coisa (ens in alio). Aplicando essa distinção para a Eucaristia, nós chegamos na Doutrina da Transubstancia.

De acordo com essa Doutrina, no momento da consagração na Missa há uma mudança de substância, mas os acidentes continuam a existir como antes: as substâncias do Pão e do Vinho são mudadas para aquelas do Corpo e Sangue de Cristo, mas os acidentes do Pão e Vinho – isto é, as qualidades de calor, sabor, cheiro e assim por diante – continuam miraculosamente a existir e serem perceptíveis aos sentidos. Mas ao mesmo tempo os Padres de Jerusalém foram cuidadosos em acrescentar, que o uso desses termos não constitui uma explicação da maneira da mudança, porque isso é um Mistério e deve permanecer sempre incompreensível (sem dúvida, muitos Católicos romanos diriam o mesmo). No entanto, apesar desse repúdio, muitos Ortodoxos sentiram que Jerusalém tinha se comprometido muito com a terminologia do Escolasticismo Latino, e é significativo que, quando em 1838 a Igreja Russa publicou uma tradução dos Atos de Jerusalém, enquanto mantia a palavra transubstanciação, ela cuidadosamente parafraseou o resto da passagem de modo a que os termos técnicos substância e acidentes não fossem empregados (esse é um exemplo interessante do modo da Igreja ser seletiva em suas aceitações dos Decretos dos Concílios Locais).

Hoje em dia, escritores Ortodoxos ainda usam o termo transubstanciação, mas eles insistem em dois pontos: primeiro, existem muitas outras palavras que podem com igual legitimidade serem usadas para descrever a consagração, e entre todas elas, o termo transubstanciação não goza de autoridade única ou decisiva; segundo, seu uso não compromete os teólogos com a aceitação dos conceitos filosóficos Aristotélicos.

Como devemos entender a palavra transubstanciação?

A palavra transubstanciação não deve ser tomada para definir a maneira como o pão e o vinho são mudados para Corpo e Sangue do Senhor: pois isso ninguém pode entender senão Deus; mas somente isso é o significado: que o pão verdadeiramente, realmente e, substancialmente, torna-se o verdadeiro Corpo do Senhor, e o vinho o verdadeiro Sangue do Senhor.

E o Catecismo continua com uma citação de São João Damasceno:

“Se você pergunta como isso acontece, é suficiente para você aprender que é através do Espírito Santo… Nós não sabemos mais do que isso, que a palavra de Deus é verdadeira, ativa e onipotente, mas na sua maneira de operar é inexplorável”.

Em toda paróquia Ortodoxa, o Sacramento abençoado é normalmente reservado, na maioria dos casos, em um tabernáculo sobre o altar, apesar de não haver regra restrita sobre o lugar de se reservar. A Ortodoxia, no entanto, não celebra ofícios de devoção pública diante do sacramento reservado, nem tem qualquer equivalente aos ofícios Católico-Romanos de exposição e bênção, apesar de parecer não haver razão teológica (distinta de razão litúrgica) para não se fazer isso. O padre abençoa o povo com o sacramento durante o correr da Liturgia, mas nunca fora dela.

A Eucaristia como um sacrifício.

A Igreja Ortodoxa acredita ser a Eucaristia um sacrifício; e aqui também o ensinamento básico Ortodoxo é colocado claramente no texto da própria Liturgia. “Aquilo que é Teu, nós Te oferecemos por todos e por tudo!”

1) Nós oferecemos aquilo que é teu. Na Eucaristia, o sacrifício oferecido é o próprio Cristo, e é o próprio Cristo Que na Igreja executa o ato de oferecer: Ele é tanto o padre quanto a vítima: “Pois és Tu que ofereces e é oferecido” (da oração do padre antes da Grande Entrada).

2) Nós Te oferecemos. A Eucaristia é oferecida a Deus Trindade – não somente ao Pai mas também ao Espírito Santo e ao próprio Cristo (isto foi estabelecido com ênfase por um Concílio em Constantinopla em 1156). Assim, se perguntarmos, o que é o sacrifício da Eucaristia? Por quem é ela oferecida? Para quem é ela oferecida? – Em dado caso, a resposta é Cristo.

3) Nós oferecemos por todos e por tudo: de acordo com a teologia Ortodoxa, a Eucaristia é um sacrifício propiciatório, oferecido por conta tanto dos vivos quanto dos mortos.

Na Eucaristia, então, o sacrifício que oferecemos é o sacrifício de Cristo. Mas o que isso significa? Teólogos sustentaram e continuam a sustentar muitas teorias diferentes sobre esse assunto. Algumas dessas teorias, a Igreja rejeitou como inadequadas, mas ela nunca se comprometeu, formalmente, com qualquer explanação particular de sacrifício eucarístico. Nicolau Cabasilas resumiu a posição padrão da Ortodoxa como se segue:

Primeiro, o sacrifício não é uma mera figura ou símbolo mas um sacrifício verdadeiro; segundo, não é o Pão que é sacrificado, mas o próprio Corpo de Cristo; terceiro, o Cordeiro de Deus foi sacrificado só uma vez, para todo o tempo… O sacrifício na Eucaristia consiste, não na real e sanguinolenta imolação do Cordeiro, mas na transformação do Pão no Cordeiro Sacrificado!

A Eucaristia não é uma simples comemoração nem uma representação imaginária do Sacrifício de Cristo, mas é o próprio e verdadeiro sacrifício; no entanto, de outro lado, não é um novo sacrifício, nem a repetição do sacrifício no Calvário, porque o Cordeiro foi sacrificado “somente uma vez, por todo o tempo.” Os eventos no sacrifício de Cristo – a Encarnação, a Crucificação, a Ressurreição, a Ascensão (note que o sacrifício de Cristo inclui muitas coisas, além de Sua morte: Este é um ponto muito importante no ensinamento Ortodoxo) – Não é repetido na Eucaristia, mas ele é tornado presente. “Durante a Liturgia, através de seu divino Poder, nós somos projetados para onde a eternidade corta o tempo, e nesse ponto nós nos tornamos verdadeiros contemporâneos com os eventos que nós comemoramos”. “Todas as Santas Ceias da Igreja não são nada mais que a única e eterna Ceia, aquela de Cristo no Salão Superior. O mesmo ato divino acontece tanto num momento específico da história quanto é oferecido sempre no sacramento”.

Santa Comunhão.

Na Igreja Ortodoxa, os leigos como o clero recebem a comunhão nas duas espécies. A comunhão é dada para os leigos em uma colher, contendo um pequeno pedaço do Santo Pão junto com uma porção do Santo Vinho; é recebida em pé. A Ortodoxia insiste num jejum estrito antes da comunhão, e nada pode ser bebido ou comido após o acordar na manhã (“Vós sabeis que aquele que convida o Imperador para sua casa, primeiro limpa a sua casa. Assim se vós desejais trazer Deus para vosso lar corporal para a Iluminação de vossas vidas, primeiro santificar vossos corpos pelo jejum”. Em casos de doença ou necessidade genuína, o confessor pode conceder dispensa desse jejum pré-comunhão). Muitos Ortodoxos, nos dias presentes, recebem comunhão com pouquíssima freqüência, talvez só cinco ou seis vezes ao ano, não por qualquer desrespeito ao sacramento, mas sim porque esse foi o jeito em que foram criados.

Depois da bênção final com a qual a Liturgia termina, o Povo vem para beijar a Cruz que o Padre segura na mão, e para receber um pequeno pedaço de Pão, chamado de Antidoron, que é abençoado mas não consagrado, apesar de ser do mesmo Pão usado na consagração. Na maioria das paróquias ortodoxas, não-Ortodoxos presentes na Liturgia são permitidos (na verdade encorajados) a receber a Antidoron, como uma expressão da amizade e amor Cristãos.