Divina Liturgia


Liturgia e Divina Liturgia

“Liturgia”, termo já incorporado à língua portuguesa, é palavra de origem grega, e significa, de forma mais literal, “serviço prestado ao povo” ou “serviço prestado para o bem comum”, e poderia ser entendida, modernamente, como “ação geral”.

De termo estritamente civil, passou, com o decorrer dos tempos, à terminologia própria da Igreja Cristã, vindo a designar, no Oriente cristão, especialmente a celebração da Santa Missa, daí, para nós, a celebração da Eucaristia ser a Liturgia por excelência, ou melhor, a Divina Liturgia. De celebrações mais simples em seus primórdios, nos tempos apostólicos, a forma da celebração foi, aos poucos, se desenvolvendo, até atingir o ápice no Império Bizantino, com a liberdade de culto que a Igreja passou a ter inicialmente (no ano 313), e, posteriormente, como a liturgia da Igreja oficial do império (ano 380), período em que sofreu influência da corte bizantina. E foi essa liturgia da capital imperial, Constantinopla, que, num processo de unificação, passou a ser praticada em todas as Igrejas do império.

Tal Liturgia, com fórmula sistematizada, foi obra de São Basílio, o Grande (329-379) Arcebispo de Cesaréia da Capadócia, que fez um trabalho de revisão da liturgia celebrada em Jerusalém e Antioquia, creditada ao apóstolo São Tiago.

Essa Liturgia de São Basílio foi, depois, revisada e abreviada, especialmente nas orações feitas em particular pelos Sacerdotes, por São João “Crisóstomo” (“boca de ouro” – 347-407), Arcebispo de Constantinopla, daí ser conhecida, até nossos dias, como “A Divina Liturgia de São João Crisóstomo”.

Foi essa Liturgia de Constantinopla, ou bizantina, como é mais conhecida (Bizâncio era o primitivo nome de Constantinopla), com seus ulteriores desenvolvimentos e acréscimos, adotada pelo conjunto das Igrejas Ortodoxas, que, sem mudanças substanciais, chegou até nós, como parte de todo um tesouro de fé.

Conservamos, outrossim, também, a Liturgia de São Basílio, celebrada dez vezes ao ano, nas seguintes ocasiões: na festa de São Basílio (1º de janeiro), nos domingos da Quaresma (mas não no Domingo de Ramos), nas vésperas do Natal e Epifania, na Quinta-feira Santa e no Sábado Santo. Há, ainda, na Ortodoxa, a Liturgia dos Pré-Santificados ou dos Dons Pré-Santificados, atribuída a São Gregório “Diálogo” (540-604), Bispo de Roma, que é um rito de comunhão para as quartas-feiras e sextas-feiras da Quaresma, assim chamada por não haver nela a oração de santificação (consagração) das ofertas ou dons, e se dar a comunhão aos fiéis com os dons pré-santificados, ou seja, santificados na Divina Liturgia do domingo precedente.

Divisões da Divina Liturgia

divina_liturgia[1]A Divina Liturgia divide-se em três partes:

I- Preparação, Prótese ou Proscomidia, ou seja, a preparação das oferendas (pão e vinho) ou matéria do Sacrifício Eucarístico, feita pelos Sacerdotes durante a oração do Orthros (Matinas), a qual se encerra com a Grande Doxologia; antes que se cante “Bendito seja o Reino do Pai…”);

II- Liturgia dos Catecúmenos ou Liturgia da Palavra, único parte da celebração eucarística da qual, nos primórdios da Igreja, os que se preparavam para receber o Santo Batismo (catecúmenos) podiam participar; vai da invocação da Santíssima Trindade (“Bendito seja o Reino do Pai…”) até a leitura do Santo Evangelho, e o sermão, que se fazia, então, logo após a leitura do Evangelho;

III- Liturgia dos Fiéis ou Liturgia Eucarística, da qual só os já batizados participavam. Esta parte compreende desde o Hino Querúbico até o final da Santa Missa.

Devemos nos lembrar que a Divina Liturgia, antes de mais nada e acima de tudo, é a celebração da Eucaristia: memorial, ação de graças e sacrifício, revivendo os mistérios da Redenção, e que esta é uma celebração instituída e ordenada pelo próprio Senhor Jesus Cristo na Santa Ceia, a última Ceia, segundo suas palavras: “Tomai, comei, isto é o meu corpo… Bebei dele todos, pois este é o meu sangue da nova aliança…Fazei isto em memória de mim.”

A Divina Liturgia, em seus diversos momentos de celebração de Cristo e do dom de sua própria vida em favor de todos, culminando com sua gloriosa Ressurreição, nos faz rememorar a vida do Salvador. Desta forma, podemos dividi-la em quatro partes:

A primeira, da Preparação à Procissão do Evangelho, que nos apresenta a vida “oculta” de Cristo, até seu Batismo no rio Jordão;

A segunda, da Procissão do Evangelho à Procissão das Oferendas, apresentando-nos a vida pública do Senhor, que se iniciou a partir do Batismo;

A terceira, da Procissão das Oferendas à Comunhão, que nos apresenta a “vida padecente” de Jesus, ou seja, sua Paixão e morte;

E a quarta, da Comunhão ao final da Liturgia, a nos apresentar a “vida glorioso” de Cristo, a partir de sua Ressurreição.

Não podemos esquecer que a experiência da vida litúrgica é também fonte da doutrina cristã. Na Divina Liturgia as Sagradas Escrituras e a Santa Tradição são vivificadas e apreendidas por aqueles que, de forma ativa e consciente, dela participam. Nossos textos litúrgicos – hinos, orações, benções, etc. – revelam a doutrina cristã, com os ensinamentos bíblicos e patrísticos, especialmente como os entende a Igreja Ortodoxa, tal como transmitidos pelos Santos Padres e Doutores da Igreja, durante os séculos de história do Cristianismo.

Vamos, pois, aprender com a Divina Liturgia, enquanto prestamos ao Senhor o culto e adoração devidos, renovados pelo Sacramento da Nova Aliança que ela celebra a Santíssima Eucaristia, em comunhão com aqueles que celebram sem cessar a liturgia celeste diante do Pai: a Mãe de Deus e Sempre Virgem Maria, Os Anjos e Santos.